Se eu puder ser útil, por que não? Aconselhar Vitor Belfort pode soar pretensioso, mas novamente: por que não? Apesar de toda a informalidade e humor do “desafio” que vivi ao enfrentar o campeão meio-pesado do UFC no quadro Sensei Noção, sempre existe algum detalhe que pode ser aproveitado, que pode ser analisado de maneira mais clínica, especialmente nos dias de hoje quando toda e qualquer informação é valiosa e muitas vezes faz a diferença na montagem de uma estratégia. E, convenhamos, os tempos de entrar no octógono com a mentalidade de “lutar de acordo com o ritmo do combate” já não condiz mais com o profissionalismo e amadurecimento do esporte. E ainda mais especialmente se o adversário em questão é o Jon Jones, um cara que se prepara com Plano A, Plano B, C, D e E, um para cada round, se houver necessidade. Não considero o Greg Jackson o melhor técnico de MMA do mundo, mas reconheço que o trabalho que ele faz de pesquisa, estudo, investigação e elaboração do roteiro de luta para o time dele é de fato diferenciado. Às vezes, chato pra burro, monótono, repetitivo, mas eficiente. Só que no caso do JJ, ainda não vi luta que não fosse no mínimo muito empolgante, e olha que já foram 17.
Sendo assim, me junto à imensa corrente verde amarela que hoje em dia, assim como no futebol, podemos afirmar que todo brasileiro tem um pouco de “coach”, de técnico de MMA dentro de si. Todos carinhosamente se prontificaram a ajudar com dicas, reflexões, pontos de vistas e conselhos para Vitor Belfort. E todos foram unânimes em dizer que o nosso ex-campeão peso-pesado e meio-pesado do UFC foi oportunista – eu usaria esta palavra sem nenhuma conotação negativa – em aceitar a luta por não ter nada a perder. De fato, o agora peso-médio só tem a ganhar aceitando uma disputa de cinturão às pressas e na categoria de cima. Desde que… não se lesione na perigosa batalha e ponha em risco a trajetória na divisão de peso até os 84 kilos, categoria atual do Vitor que inevitavelmente o colocará frente a frente mais uma vez com o campeão Anderson Silva. Óbvio que testar positivo para o doping também seria desastroso a essa altura do campeonato, e isso implicaria num efeito completamente contrário, com o brasileiro colocando tudo a perder e nada a ganhar. Mas em ambos os casos, sem demagogia rasa, eu acredito que tudo vai acabar bem até demais. Primeiro porque o Vitor Belfort do UFC moderno gosta de dar o exemplo e é frontalmente contra o uso de qualquer substância proibida, subindo para lutar na categoria até 93 kilos saudavelmente fortalecido sob o comando do ex-lutador e recomendadíssimo nutricionista Mike Dolce. Segundo porque o resultado da luta é o que menos importa (desde que não se lesione, repito), e na pior das hipóteses entra para as estatísticas de mais uma vítima no cartel quase perfeito do Jon Jones (a única derrota do campeão foi por desclassificação devido a cotoveladas proibidas de cima para baixo, com o “vencedor” Matt Hamill já semi-nocauteado). Belfort não é o favorito nem de longe, mas até nisso eu enxergo pontos positivos para uma pouco provável vitória, afinal a pressão é toda do Campeão ao defender a Coroa ameaçada por um lutador menor, mais leve, 10 anos mais velho e sem as habituais 10 ou 12 semanas de preparação adequada.
Numa recente vídeo-reportagem, Vitor cita Gideão, ele diz “Leia Gideão” em referência ao antigo guerreiro que, segundo a Bíblia, libertou o povo de Israel, destacando no ato heróico os fatores “surpresa” e “superação do mais fraco sobre o mais forte”. E é aí também onde este artigo ganha a razão e coerência.
A questão chave nesta matéria encomendada evidentemente é a famosa queda, o primeiro takedown que o Jon “Bones” Jones sofreu na carreira, pelo menos o primeiro e único até agora registrado. E que aconteceu justamente na gravação do Sensei Noção, dentro do octógono do Centro de Treinamento dos irmãos Rodrigo Minotauro e Rogério Minotouro, em janeiro deste ano. Peço que leiam desprovidos do próprio propósito que o “Desafio” tinha, o de apenas entreter. A intenção desta vez é o chamado “open mind”, é não descartar nenhuma possibilidade em nome do melhor resultado possível.
Antes de fazer uma análise mais aprofundada, e enriquecida com a declaração de vários especialistas que literalmente vivem o MMA, eu entendo que derrubar o Jon Jones por si só já daria ao Vitor inúmeras vantagens. Enquanto o psicológico do do campeão pode se desestabilizar por ser surpreendido e tomar a primeira queda em todas as 17 lutas feitas pelo UFC, o psicológico do desafiante se fortalece na proporção contrária. Jon Jones abalado mentalmente, frustrado ou surpreso é uma incógnita. Será que ele se enfurece e cresce no duelo, ou será que ele se retrai e passa a jogar na defensiva e acuado? Mister Jones com as costas no chão é outra incógnita. Devidamente afastado das grades, para que o campeão malandramente não as use para se levantar, não sei quais armas o campeão teria para reverter o jogo, mas certamente ele as tem, afinal não é à tôa que o cara revolucionou o esporte e está para a grande maioria dos fãs como um dos 3 maiores lutadores do mundo peso por peso, e de todos os tempos. As cotoveladas são as armas mais óbvias. De baixo pra cima, de lado, no coco da cabeça do oponente, da onde for, da onde puder. Ninguém usa os cotovelos como o “Bones” (ossos em inglês, e apelido muito apropriado aliás). Guilhotinar também é com ele mesmo. São os braços mais cumpridos de todo o elenco que já fez parte do Ultimate. Mais de 2 metros de envergadura, de ponta a ponta com os braços abertos. Portanto, a entrada em queda do brasileiro deverá ser explosiva sim, mas calculada. Postura, cabeça erguida por fora e ao lado quadril do campeão, para não acontecer o que já aconteceu com o próprio Vitor quando enfrentou e foi finalizado com uma gulhotina pelo ainda “murchinho” Alistair Overeem nos tempos do Pride.
Agora chega de vuduzar e falar dos riscos. E vamos aos prós que uma queda traria ao desafiante no sabadão que vem. Ground and pound frenético, intenso e sufocante. Da onde o Vitor cair por cima, bombardear com todo o volume absurdo de socos característico do Fenômeno. A quantidade de socos que ele dispara é inquestionavelmente uma das mais impressionantes da história do UFC. Desde Abbott, Telligman e Ferrozo a Franklin, Akiyama e Johnson (finalização). E mais: além da velocidade de um peso leve, o punch (a pegada) é de peso-pesado, e a versatilidade dos socos também é brutal. Não são apenas os socos em linha, os famosos “um-dois” ou jabs-diretos que ficaram eternizados naquela sequência devastadora, andando pra frente e desmontando o Wanderlei Silva em 1998. As combinações e o cruzado de esquerda estão entre os mais poderosos e temidos do esporte. Mas voltando ao trabalho de solo, Vitor Belfort pode, ele sim, desferir aliadas aos socos as polêmicas cotoveladas. A discussão se as cotoveladas são boas para a imagem do esporte não cabe neste momento, por enquanto é perda de tempo. O presidente do UFC Dana White não quer nem saber se a cotovelada no chão é tão antidesportiva quanto uma cabeçada. Então, o brasileiro tem mais é que treinar muito a proteção às cotoveladas, e fazer uso delas tanto ou mais que os americanos. Você consegue imaginar a potência de um, ou alguns socos do Vitor Belfort no meio da cara do Jon Jones, especialmente se atrás da cabeça dele tem o chão para não ajudar em nada a absorção dos petardos vindos de cima? É apagão certo.
Carlão Barreto, respeitadíssimo comentarista, profissional multimídia e ex-parceiro de treinos de Vitor Belfort, tem uma perspectiva menos sonhadora e fantástica que a minha. Carlão vê os punhos de Vitor como o caminho mais aconselhável para a triunfante vitória:
“Pelo que consegui analisar, esse vídeo será de pouca valia para o Vitor, pois o Jon Jones estava visivelmente brincando, sendo assim todos os golpes desferidos por ele foram dados sem precisão, cálculo e busca de eficácia. Pelo que vi, ele não estava preocupado em acertá-lo, pelo contrário estava calculando em não machucá-lo. Acho que inclusive a queda teve êxito porque o Jones freiou o movimento para não atingi-lo, em contrapartida você usou sua base de auto-preservação (típica de lutadores de jiu-jitsu) para derrubá-lo. Em minha visão de luta, o que o Vitor deve fazer é baseado no que o Lyoto e Rashad fizeram de bom no combate, ter a frieza de não deixar o Jones angular, buscar a distância e usar a precisão de seus punhos para surpreender o campeão. Tenho mais ou menos a mesma altura do Jones e treinei com o Vitor durante anos, posso garantir a você que se o Vitor não se movimentar sempre de forma agressiva (nunca de forma passiva) não terá chances. A chance dele no combate é fazer o Jones perder a principal arma que é a envergadura, pois nenhum lutador muito alto gosta de lutar com adversários que trabalhem muito indo para cima, preferimos lutar com atletas que gostam de cadenciar a luta, pois assim conseguimos usar a distância a nosso favor. Outra coisa, o Jones em uma luta “real” jamais aceitaria o jogo de solo contra um lutador com as habilidades do Vitor, só se já estivesse bastante machucado ou cansado. Vamos voltar ao vídeo: sinceramente não vejo aonde essa “brincadeira” pode ajudar o Belfort, na boa, treinamento de alto rendimento é outra coisa, o Jones se segurou para entrar no clima, isso é evidente, sendo assim, todos os golpes aplicados por ele não foram “reais”, desta forma vários erros foram cometidos pelo campeão. Não estou subestimando você, apenas as realidades são bem distantes, como você mesmo falou na reportagem do programa.”
Dedé Pederneiras, este sim um dos mais completos, senão o mais completo técnico de MMA do mundo concorda com o Carlão que a trilha para a vitória está ainda de pé, na trocação propriamente dita. Mas entende que derrubar o gigante – seja na metralhadora vestida de luvas ou no wrestling – é tudo o que o Jon Jones não quer.
“O Jon Jones tava de canhoto e quando ele jogou o joelho, ficou com as pernas paralelas. O Marinho entrou no tempo certíssimo, soube pegar o tempo exato para conseguir entrar e derrubar o Jon Jones, o que é muito difícil. A gente treina muito esse tempo de entrada de queda na Nova União, é um dos nossos grandes diferenciais”, disse Dedé que não economiza esforços para fazer do time dele um dos mais fortes tanto em defesa de quedas quanto no contragolpe e execução dos takedowns, vide José Aldo, Renan Barão e Hacran Dias, todos graduados no jiu-jitsu mas que pouco, ou nada lutaram com as costas no chão.
O vídeo, apenas mais um entre tantos outros que estão a serviço da equipe Blackzillians, não foi descartado. Na verdade, as imagens já haviam feito sucesso e arrancado boas gargalhadas de Rashad Evans, quando ele trocou a antiga equipe em Albuquerque (a mesma academia de Jon Jones, os dois foram parceiros de treino e alunos de Greg Jackson) e se mudou para Boca Raton, na Flórida, sede da Blackzillians. O carioca Flavius Virginio, um dos responsáveis pelo treinamento de chão da equipe, mostrou o Sensei Noção para o Rashad em março. O vídeo descontraiu e proporcionou boas risadas ao desafiante, mas certamente não o inspirou, já que Rashad sendo um dos mais eficazes e velozes wrestlers do Ultimate não tentou derrubar o ex-colega nem uma vez sequer durante os 5 rounds.
Vitor agora integra essa constelação de astros da Blackzillians muito rica em material humano para sparrings de todos os números (do Alistair Overeem ao Melvin Guillard) e das mais variadas especialidades (do próprio Rashad Evans ao striker Guto Inocente). Mas eu fui procurar o treinador de quedas do Vitor quando ele está em Las Vegas, o campeoníssimo de judô e atleta da seleção brasileira de luta greco-romana Rodrigo Artilheiro. A minha argumentação foi a mesma, enfatizando a antecipação e o fator surpresa, buscar encurtar fintando a sequência de socos ou ir de encontro ao golpe do gigante, por mais suicida que a dica possa parecer. Mas dar o bote kamikaze na hora certa pode funcionar justamente pela imprevisibilidade, porque qualquer lutador que fique na frente do Vitor já sabe que vem chumbo grosso dos punhos do brasileiro, especialmente daquela canhota que nocauteia até de raspão. O especialista em wrestling e um dos membros do time do Vitor no reality show The Ultimate Fighter Brasil também foi cauteloso com relação a derrubar o “inquedável” Jon Jones. Artilheiro, sempre muito bem-humorado, respondeu: “a queda foi no tempo certo, um lindo morotegari !! E foi veloz! Isso que foi o mais importante, mas eu apostaria em outra estratégia. Acredito no jogo de boxe do Vitor, nas mãos dele! Não gastaria energia para tentar derrubar o Jon Jones. Você é jiu-jiteiro, Marinho, você não tinha opção na trocação rsrs”.
Tá bem, tá bem, tem muita lógica… mas isso só reforça a minha teoria que, assim como o Artilheiro, o mundo inteiro espera o ataque vindo das mãos do Vitor! E o Mister Jones também!! Não quero impor uma regra, mas não quero desconsiderar a possibilidade da queda também, afinal é a mistura de artes marcias, e não o boxe. O Vitor é tão habilidoso para a luta, que da geração dele ele é o cara que mais evoluiu e se atualizou em todos os fundamentos do MMA, descendo a mão na trocação e finalizando como bom faixa-preta do Carlson Gracie, mas também nocauteando e desfigurando o Marvin Eastman com perfeitas joelhadas do clinch no mais puro muay-thai. E vou além: O Vitor derrubou o Anderson Silva no ano passado se antecipando a um chute do campeão. O Vitor simplesmente atropelou que nem um metrô o Chuck Liddell em 2002, quando o Chuck Liddel era o “inquedável” da época. E justamente na categoria meio-pesado. Foi na curiosa edição do UFC de número 37.5, quando o Vitor acelerou com toda velocidade e explosão que o consagraram – e ainda o consagram, e arrancou o moicano “Iceman” do chão na marra. O mesmo ele fez com o Tito Ortiz. Eu tive o privilégio de frequentar a casa do Mestre Osvaldo Paquetá, falecido no início do mês passado, e no meio do maior arquivo de lutas do mundo, o nosso querido cinegrafista tinha o registro do Vitor, ainda menor de idade, vestido com a malha da luta-olímpica se testando e saindo vitorioso nessa modalidade que 20 anos atrás ele tinha que praticar às escondidas por ser um representante do jiu-jitsu. Até judô o Vitor treinou há cerca de 3 anos com ninguém menos que o campeão mundial Luciano Corrêa, em Minas Gerais. O Vitor pode espancar o Jones na luvinha de 4 onças, mas pode também derrubar o gigante, e assim trocar de posição com ele: no chão, o Vitor é maior.
Já sei então, vou consultar a nossa maior referência em quedas e projeções, o maior campeão de luta-olímpica que o Brasil já teve: Antoine Jaoude. Bola dentro! Falamos a mesma linguagem e dividimos a mesma percepção. Seguem as palavras do 17 vezes campeão brasileiro na modalidade estilo-livre:
“Marinho vi e revi o programa, e como você propôs a melhor maneira é o Vitor encurtar, batendo de baixo para cima, trabalhando em conjunto muito com as entradas de double-leg (pra quem não sabe o double-leg é a nossa velha e famosa “baiana”, ou simplesmente a catada das duas pernas do oponente). Importante é a cabeça por fora pela direita e o single-leg pela direita também, antecipando e encurtando a distância sempre”.
O ex-dono do cinturão peso-médio do Strikeforce, Ronaldo Jacaré, outro campeão em força, fúria, velocidade e explosão apoiou de maneira incondicional a minha insistente e incansável idéia de adaptar – com a devida malícia – o jogo de boxe ao ataque às pernas do gigante. Jaca pediu para que Belfort não desacredite no poder de botar pra baixo os maiores. Ou, nas palavras do próprio Vitor, fazer da montanha um quebra-mola. “Belfort, acho que você tem que rever muitas vezes esse vídeo porque a entrada do Marinho no Jon Jones foi perfeita, você tem que se adiantar na joelhada do Jon Jones sem baixar a cabeça para não ir de encontro ao joelho. Ele pegou muito no tempo, quando o Jon Jones veio com a joelhada ele se adiantou, é um movimento perigoso porque ele pode pegar de encontro com a joelhada, mas ele se adiantou no tempo perfeito e pegou muito bem. Acho que o que ele fez de mais legal, vendo o detalhe, é que ele se adiantou com a cabeça alta, ele não se adiantou com a cabeça no chão como se fosse num double-leg, ele se adiantou com a cabeça do lado de fora. Ele levou a vantagem porque entrou certo, pegou muito no tempo. Acho que o Vitor tem que se espelhar sim numa situação como essa, encurtar a distância e fazer o que ele sabe de melhor também que é o boxe, mas acho que ele não pode deixar de ver esse takedown do Marinho que pode acrescentar muito no jogo dele como um recurso a mais”.
A idéia, se pudesse, era isolar apenas essa movimentação, ignorando o restante do programa que tem como missão divertir. Mas no próprio programa, eu tive o cuidado e a atenção de separar dois momentos muito semelhantes ao golpe, duas joelhadas voadoras que o Jon Jones incorporou no estilo dele de lutar e que sacudiram o Shogun e o Rampage. Naturalmente que a velocidade e a potência são mil vezes maiores que joelhada voadora que ele me ameaçou em câmera-lenta a fim de me preservar. Mas a questão é, pela menor estatura do Vitor, as cotoveladas giratórias e voadoras talvez não sejam a maneira mais certeira de atingir o alvo. E as joelhadas voadoras, ou os chutes, podem ser a preferência do campeão, e nesse caso o Vitor deve explodir de encontro como fez derrubando e surpreendendo o Anderson no exato momento do chute alto do campeão. Especialmente se esses golpes vierem no primeiro e segundos rounds, quando o Vitor é seguramente um dos mais perigosos lutadores do planeta para qualquer adversário.
Minha tarefa de ajudar se resume a torcer e acreditar que existe mais de um caminho. Bota o gigante pra baixo, Vitor.
Share